
DVD: Mina - Mina in Studio (2001)
Foi o meu amigo Paolo Driussi, de Udine (Friuli) - grato correspondente da Internet, fan ultra de Mina - que me deu este DVD, como, aliás, muitos CDs de Mina e não só... Compreende-se que uma vasta corte de admiradores venere este documento que assinala, após tantos anos de ausência física (desde 1978!), um certo reaparecimento físico da diva. Um certo reaparecimento, pois, de facto, não se trata de um verdadeiro reaparecimento artístico, pelo menos segundo os parâmetros comuns. É a captação de uma sessão de gravações no seu estúdio. Mantendo-se firme quanto à sua remota promessa, Mina não faz espectáculos, nem sustenta os compromissos próprios de um artista. Limita-se a gravar um álbum de originais cada ano, com regularidade quase burocrática. Tudo o resto corre pelo imaginativo trabalho do seu habitual staff, desde o filho Massimiliano Pani ao fotógrafo Mauro Baletti. O álbum anual é sempre um acontecimento aguardado com interesse, mas, nesta rotina, ano após ano, a esperança de um reaparecimento público foi-se desvanecendo. Assim, quando em 2001 surgiu este DVD, a rotina foi quebrada e alguns apressaram-se a deduzir que estaria eminente o seu regresso à vida artistica normal. Até ver, não passou de uma inusitada concessão pontual que não autoriza devaneios... O conteúdo reforça a desesperança, já que, ostensivamente, se trata de uma consentida intrusão numa oficina onde se trabalha... gravando música. O velho maestro Gianni Ferrio dirige com pendente cigarro ao canto da boca, radicalmente alheio a qualquer pose. O resto da trupe alardeia informalidade e quanto à própria Mina não estranhariamos se a vissemos entrar de roupão - algo que, aliás, temos boas razões para imaginar que acontecerá noutras comuns sessões de gravação, pois o estúdio é um anexo da sua mansão de Lugano. É um documento interessante. Atesta, desde logo, que a diva existe... não morreu. Atesta que aquele timbre de voz ainda existe, apesar de ser visível que o rosto é já o de uma senhora sexagenária. Mais de vinte anos passaram e ao longo deles as trucagens artísticas nas fotos de Mauro Baletti sustentaram uma Mina de aparência suspensa no tempo. Agora temos perante nós, definitivamente, o trabalho do tempo num rosto. Ao longo dos anos fomos ouvindo como a voz se foi transfigurando, perdendo umas qualidades, mas ganhando outras. Agora podemos apreciar a menos benévola transfiguração de um rosto. A diva nunca foi bonita, mas tinha uma auréola sedutora assente num charme distinto. Neste particular, o implacável escopro do tempo só não foi diligente em relação à distinção... Artisticamente o documento pouco acrescenta. É um registo digno onde avultam peças inseridas no álbum de homenagem a Domenico Modugno, o qual tem pontos altos e baixos. No meio, porém, encontra-se uma ou outra coisa de valor acima da média - é, este o caso da notável versão de Ill Wind, que Sinatra imortalizou em In The wee Small Hours. A voz de Mina soa divina neste tema.
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