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Cuore Matto

Observações casuais a propósito de Itália.

segunda-feira, dezembro 27, 2004


DVD: Sergio Leone - Aconteceu no Oeste (C'era una volta il West)(1987)

Só agora, ao fim de tantos anos, vi um spaghetti western. Foi Aconteceu no Oeste, em edição DVD. Lembro-me que nos anos 70 - tempo em que vi muitos filmes e mais me interessei por cinema - encarava com desdém estes filmes (réplicas menores de westerns...) e por essa razão nunca vi nenhum. Só mais tarde, quando fui sabendo do reconhecimento do realizador Sergio Leone é que percebi que o género mereceria mais atenção. Na verdade, sempre gostei muito de cinema italiano e teria sido natural que tivesse contornado esse preconceito, mas tal não sucedeu.
Aconteceu no Oeste é uma obra-prima. Pega nos lugares-comuns do género e leva-os até a um exagero quase ritual. É uma espécie de compêndio de todos os truques dramáticos dos westerns, de tal modo que se torna um autêntico jogo com o espectador, que é chamado a passar em revista todo o conhecimento prévio que tem da matéria. Mas nesta "revisão da matéria dada" há uma linha de rumo inovadora, quer a nível técnico, quer a nível temático. A nível técnico temos a utilização de grandes planos faciais a um ponto nunca visto, (reforçando o pathos das cenas dramáticas). Temos também um tempo de realização "à europeia", que faz sobressair os detalhes - a acção vai-se desenrolando com um tal parcimónia que concita atenção ao pormenor. A nível temático, o enredo vai num sentido que também não é comum no velho western. Utilizando o jargão da época, vai num sentido que suscita uma leitura anti-capitalista. Estamos perante um exercício de subversão técnica e ideológica do western.
Sergio Leone chegou aqui depois de uma triologia que inaugurou e desenvolveu o spaghetti western: Per un pugno di dollari (Por um Punhado de Dólares), 1964; Per qualche dollaro in piú (Por alguns dólares mais), 1965; Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo (O Bom, o Mau e o Vilão), 1966. O ponto de partida para o primeiro filme era lamentável. Um orçamento de penúria - Clint Eastwood, que se tornaria a vedeta da triologia no personagem Homem Sem Nome, foi contratado porque era, entre todos os que figuravam numa lista de artistas americanos, o único financeiramente acessível (não passava então de um actor de séries televisivas). O argumento era um descarado plágio de Yojimbo, de Akira Kurosawa (o que trouxe posteriores problemas). A rodagem, com meios improvisados e precários, foi feita em Tabernas (Almería, Espanha), pois era absolutamente inimaginável afrontar os gastos de uma rodagem no verdadeiro Oeste... Os meios eram, enfim, os dos modestos filmes populares italianos. O retumbante êxito comercial em Itália e Espanha e depois, por toda a Europa, sustentou o segundo e o terceiro filme, que dispuseram de crescentes meios financeiros e amplificaram progressivamente o sucesso comercial. Os seus ecos acabaram por chegar aos Estados Unidos numa altura em que o western estava fora de moda. Aconteceu no Oeste consagra o reconhecimento norte-americano, com meios de produção e artistas "à americana": Henry Fonda (não já Clint Eastwood) era então um artista de primeiro nível; a italianissima Claudia Cardinale fazia já parte do do star system... Contudo, o artista mais decisivo no filme acaba por ser Charles Bronson vindo do universo dos filmes de acção, Série B - a sua expressão e pose de durão são indissociáveis do filme, que sem esses elementos não faria tanto sentido. Em todo o caso, ao contrário do que sucedeu na Europa, não teve o esperado sucesso no mercado norte-americano. Foi marcante para os cinéfilos, mas desiludiu o grande público que não estava habituado a westerns de três horas e com um tempo de acção que levou um crítico a entitular a sua crónica com um paradigmático Tédio na Pradaria. Acolhimento que determinou um corte de vinte minutos na versão original.
No soberbo documentário que está inserido nesta edição em DVD são dados a conhecer pormenores saborosos. A maior parte da rodagem ocorreu em Tabernas (Almería, Espanha) e Cinecittà (Roma), mas há sequências rodadas no emblemático Monument Valley (Arizona, EUA). O perfeccionismo detalhista de Sergio Leone implicou que muitas das gravações, mesmo das cenas mais inóquas, fossem repetidas até à exaustão. Por outro lado, é espantoso que tendo sido sempre um apaixonado pelo cinema americano e acabando por ter a seu cargo a direcção de muitos actores americanos, nunca tivesse aprendido inglês.
Uma palavra final para a conhecida banda sonora de Ennio Morricone. Este é daqueles filmes em que a banda sonora tem papel destacado. Inclusivamente, há cenas que parece que foram concebidas a pensar na música, por exemplo, as da harmónica de Charles Bronson... É uma música que ganha outra dimensão no filme. Digo isto, pois conhecia-a apenas enquanto música.
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Info IMDb

|| Edmundo Tavares, 4:01 p.m.

2 Comments:

Do you know "Clint el solitario" with George Martin and Marianne Koch ?
Anonymous Anónimo, at 12:52 p.m.  
Pois é caro amigo os preconceitos fazem com que só com muito atrazo ou até mesmo nunca nos apercebamos do real valor de uma obra de arte. Já agora aconselho-lhe q veja também A Quadrilha Selvagem de Sam Peckinpah recentemente lançado em Portugal e se encontrar... As Brancas Montanhas da Morte (Jeremiah Johnson) de Sidney Pollack (este dificilmente será lançado em Português e é pena).
Eu desde a minha juventude nos anos 70/80 "papei" de tudo desde Leone e Tessari até Eisenstein Orson Wells passando pelos Franceses da nouvelle vage ao Louis de Funès e os Ingleses e hoje nos meus 40 e tais mantenho a mesma atitude (dentro dos limites do razoavel)

Luis Faria
Anonymous Anónimo, at 11:08 p.m.  

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