tml PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-transitional.dtd"> Cuore Matto: Viagem ao Norte de Itália / 2001 (18)

Cuore Matto

Observações casuais a propósito de Itália.

domingo, novembro 21, 2004

Viagem ao Norte de Itália / 2001 (18)

5º Dia (4ª Feira)(manhã/tarde)

Era o último dia em Florença. Às duas horas da tarde tomaria o comboio para Milão. A manhã estava destinada, custasse o que custasse, a visitar a Galleria dei Uffizi. Mas, uma vez aí chegado, a bicha que se me deparava foi um desafio à maior tenacidade… Ao fim de três quartos de hora continuava parado. Nessa altura foi difundida informação de que me aguardavam três horas de espera! Ou seja, quando lá entrasse, disporia de meia hora até chegar ao comboio… Abandonei a bicha e lancei-me errante pelas ruas numa errância ociosa e frustrada. Foi uma despedida melancólica que se foi arrastando até à estação. Esta é, talvez, o único edifício moderno do centro , mas com uma arquitectura moderna, de grande qualidade.
Sempre me atraiu o transporte ferroviário. O comboio que em duas horas me poria em Milão era rápido, silencioso e confortável. Não era de alta velocidade, mas não estava longe desse nível. Atravessou-se os Apeninos em estreitos vales e túneis. Em pouco mais de meia hora entrou-se na Emilia Romagna e pouco depois a composição parava em Bolonha - a sua principal cidade. Esta é a região de mais elevado nível de vida da Itália. Ocupa a planície do Pó. A fertilidade dos seus campos já era celebrada nos tempos em que os romanos construíram a Via Emilia, que acabou por dar o nome à região. Não é apenas a agricultura que é produtiva. Alguma da tecnologia mais desenvolvida do mundo tem aqui a sua sede. Basta mencionar um símbolo: Ferrari. É também um território tradicionalmente esquerdista... Foi-o sobretudo no passado, graças ao peso de um extenso e combativo proletariado agrícola. Bolonha foi um exemplo da eficácia da gestão do PCI, que ganhava sistematicamente as eleições municipais. Além disso, não por acaso, as tramas burlescas de Don Camillo (série de divertidos filmes protagonizados por Fernandel), estavam situadas num aldeia da região. Por outro lado, foi também aqui que nos anos vinte surgiu a mais poderosa base de apoio do fascismo, entre os grandes agrários e as classes médias das suas numerosas cidades provincianas.
A seguir a Bolonha o comboio passou por Modena, Reggio nell’Emilia, Parma (além de sede da Parmalat é a cidade de Giuseppe Verdi), Piacenza. São cidades com história, de média dimensão. A planície, sempre verde e salpicada de casas, estende-se até perder de vista.
Entre e Piacenza e Cremona entrou-se na Lombardia. O povoamento tornou-se ainda mais denso. O arredores de Milão foram anunciados pela suburbanização da paisagem. A Estação Central de Milão é monumental - quer pela quantidade de linhas, composições e gente, quer pelas dimensões do edifício. O percurso de táxi até ao hotel trouxe-me uma primeira impressão, a qual não podia ser melhor. É de bom tom dizer-se que, para além do Duomo, Milão mais nada tem que ver... Sempre suspeitei que estas impressões resultariam de uma errónea atitude que decorre de se a ver com os mesmos olhos com que se vê Veneza, Florença, Roma. Pelo que sabia, achava que a capital económica da Itália não seria, necessariamente, desinteressante. Acertei. Aliás, transcendeu as minhas expectativas. É incontestável que se trata de uma cidade elegante e, além disso, deu-me desde logo uma sensação: de todas as cidades conhecidas (Nova Iorque incluída) deveria ser a de mais elevado nível de vida.
|| Edmundo Tavares, 1:18 a.m.

0 Comments:

Enviar um comentário