3º Dia
De manhã, ao sair, rendi-me aos encantos florentinos. A luminosidade e a ausência de fadiga permitia-me uma visão diferente. Deparei-me logo com a sóbria imponência do Palazzo Strozzi e com a igreja de Santa Maria Novella, que tem uma fachada onde sobressai o contraste entre as linhas de cinzento claro e as linhas de cinzento escuro, o que se repete em vários outros edifícios religiosos e laicos.
Um dos problemas que afectou a estadia foi a avalanche turística que me dissuadiu de engrossar as longuíssimas filas de espera para entrar em sítios fundamentais. Porém, ainda mais grave, foi a onda de calor, que exactamente aqui atingiu o seu epicentro, com temperaturas máximas em torno dos 37º e mínimas que não desciam dos 23º. Florença foi protagonista desta vaga nos telejornais, que não se cansavam de mostrar turistas banhando-se nas fontes
A Catedral de Santa Maria del Fiore (Duomo) é um dos ex-libris da cidade. A grandiosidade da cúpula, de Brunelleschi, contrasta com a graciosidade das linhas de todo o edifício, em particular com a fachada e o Campanille (torre sineira). Há múltiplas formas geométricas nos mesmos tons de Santa Maria Novella. Sempre tive queda pelos excessos barrocos, contudo, o classicismo florentino, nomeadamente o que se pode apreciar no Duomo, é de insuperável elegância, sem renunciar múltiplos pormenores decorativos e, de facto, percebi a sua superior valia. O interior, para um leigo como eu, parece, francamente, não estar à altura do exterior. O Baptistério, edificado à parte (em Pisa também é assim), bem no centro da praça. é imponente. A Porta do Paraíso (Leste) atraía uma descomunal fila de turistas, cuja grande maioria, talvez, não suspeitasse estar perante uma réplica. O original está no vizinho Museo dell’Opere del Duomo. Todo este conjunto monumental, visto de cima não deixaria de se assemelhar a torrões de açúcar atacados por um formigueiro. Os turistas são aqui uma amostra da humanidade (Pude ver, por exemplo, uma excursão de turistas hindus...). Muitos estavam integrados em grupos guiados e embrenhavam-se por todo o lado. Mesmo em sítios aparentemente comuns estacionavam, banhados em suor, escutando o guia. Em boa verdade, pouca coisa comum há no centro de Florença... Só um iniciado em História de Arte pode tirar devido proveito de uma visita nestas condições. O vulgar turista, mesmo aquele que detém alguma sensibilidade para as coisas da arte e da história, corre o risco de enfartamento. Mas, não se pense que é uma cidade museu, no sentido, em que esteja desprovida de vida normal. Tem quase meio milhão de habitantes e um intenso tráfico adaptados às contingências de uma morfologia medieval. Mas, note-se, não se vislumbra em todo o extenso centro um único edifício moderno! Por outro lado, vê-se que a cidadania está orgulhosa do estatuto ímpar da sua urbe.
A Via dei Calzaiuoli é o eixo que atravessa o centro. Um pouco mais ampla que as restantes ruas, exclusivamente reservada a peões, vem desde o Duomo, passa perto da Piazza della Repubblica e desagua na Piazza della Signoria. A Piazza della Repubblica é uma centro recente, composta por edifícios novecentistas, de linhas clássicas (aqui toda a arquitectura é clássica, mesmo a do século XIX), ocupados por companhias de seguros. Está rodeada de cafés com esplanadas, onde os turistas são alegremente espoliados por um Cinzano ou por um gelato. A Piazza della Signoria é a ágora – o coração cívico. Impressionei-me quando lá cheguei e vi outro ex-libris, o Palazzo Vecchio, com a sua torre comunale. As estátuas célebres que adornam a praça, com destaque para o o Perseu, de Benvenuto Cellini e, sobretudo, para o Davide de Michelangelo, lá estão! Contudo, senti-me desiludido por ser demasiado evidente tratar-se de réplicas... Naquela manhã de primeira segunda-feira de Agosto, aquele lugar parecia palco de um clima pré-tumulto, tão grande era a quantidade de turistas emocionados que tropeçam uns nos outros de máquina fotográfica em riste. Muita gente chega aqui com a emoção com que um muçulmano chega Meca. Perante a visão do Davide com a moldura do Palazzo Vecchio, sente que cumpriu um desígnio superior – muitos não se contêm e tratam de utilizar o telemóvel para participar o facto a um algum ente querido distante. Para mim não foi muito distinta a sensação de atravessar a Ponte Vecchio, que até os nazis não tiveram coragem de bombardear... Todas as lojas da ponte, com uma única excepção, são ourivesarias. As montras ostentavam peças notáveis a preços inalcançáveis. Daqui também se pode apreciar um pôr de sol especial...
Toda a manhã, fim da tarde e noite foram ocupadas em deambulações pedestres pelo centro – é a única forma adequada de conhecer a cidade. À tarde não houve outra alternativa senão procurar refúgio no quarto, pois o calor era insuportável. Foi para mim uma surpresa verificar como, numa noite tão quente não havia gente na rua em quantidade proporcional ao magote diurno. Depreendi, não sei se acertadamente, que em Itália há pouca animação exterior nocturna, sobretudo, atendendo às potencialidades dos espaços e ao que ocorre, por exemplo, em Espanha.